
Já faz tempo que gosto de estudar sobre o fenômeno do coletivo e do individual, e das inúmeras tensões que giram ao redor de nossa existência como seres diferenciados e ao mesmo tempo integrantes de um corpo (seja tal termo referente à nação, sociedade ou religião).
Um livro que reúne impressões muito vivas e é de uma riqueza imaginativa fantástica é a obra de Elias Canetti, "Massa e Poder". É patente que o autor assume uma visão reducionista de nossa sociedade, e enxerga o instinto de coletividade em tudo. Religião, governos, grupos e elites não passam de uma rendição do ser humano ao instinto de se agrupar em "maltas" ou em "massas" para obter segurança. Elias repete o saudosismo de um passado animal imaginado por muitos outros autores e põe tudo no mesmo "saco" como tantos outros que escreveram sobre temas psicológicos e antropológicos, mas a leitura de seu livro traz insights interessantes e aplicáveis, e a linguagem que ele usa é didática e envolvente. Porém, vários pressupostos (muitos de cunho iluminista secular) de sua obra estão lá tentando entrar na reflexão valendo-se da persuasividade de Canetti. É um livro para enriquecer a cabeça com imagens, e que serve de ponte para outras obras sobre o assunto, mas que não esgota o problema de forma alguma.
Quando ele fala de religião, sua visão unilateral fica ainda mais clara. Ele nega ou finge não existir o caráter extremamente individualista que a fé cristã coloca no ser humano e na sua salvação, lembrando somente do caráter orgânico e coletivo do Corpo da Igreja cuja cabeça é Cristo. Por alguns momentos ele reconhece o caráter inibitório sobre a massa que a igreja exerce, mas na sua análise, a percepção de uma alma humana sozinha perante Deus merece pouco crédito.
Bucando mais sobre o fenômeno das massas, um outro livro oferece uma visão que paira também sobre seu oposto benéfico: a individualidade nobre. "A Rebelião das Massas" de Ortega Y Gasset é um daqueles livros escritos em outra época que parece se aplicar a toda a história humana, e guarda um sentido de atualidade que assusta. José Ortega medita sobre o fenômeno das masas e vai um pouco além. Na sua obra percebemos que o ser humano não é só massa, e que o sacrifício de poucos garante o que existe de bom na nossa sociedade. Não dá para falar de massas sem comentar sobre a coragem daqueles que negam continuamente o instinto de se perder na multidão, de integrar a Legião, e decidem carregar sobre si o peso e a responsabilidade de fazer o correto.
Eric Voegelin no livro "Hitler e os Alemães" explora mais a fundo o problema do nazismo e de como a massa pode também ser massa na hora de assumir a culpa pelos erros que cometeu (algo que Elias Canetti também aborda). Enquanto o ser humano se esconde atrás do conceito de coletividade, seja de classe social ou raça, existe uma certa inculpabilidade em seus atos, que permite muitas vezes situações cruéis com a inocente desculpa de que o coletivo assim ditou. É como o oficial nazista ou comunista que, com a cara mais inocente do mundo, explica ter matado inocentes crianças porque a autoridade maior assim demandou (alguns culpam até mesmo a "deusa" história, e a inevitabilidade da sociedade marchando para o futuro socialista). Voegelin magistralmente mostra como a maldade cresce e persiste na medida em que pessoas simples se entregam ao coletivo e deixam de assumir a responsabilidade individual por seus atos. É fácil culpar Hitler e é fácil culpar Stalin, embora Hitler tenha sido combatido e os oficiais alemães tenham sido julgados internacionalmente, enquanto Stalin, Mao e o restante dos líderes genocidas socialistas são elogiados ainda hoje por nossos "intelequituais".
Na verdade, negar a individualidade é ceder fracamente e cegamente à maldade de outros indivíduos mais fortes e cruéis, que sabem se aproveitar muito bem da fragilidade e da covardia alheia.
Saindo da Alemanha e caindo no Brasil, Olavo de Carvalho criou o termo "Imbecil Coletivo", e traduziu em livro o fenômeno de extrema idiotização no qual se transformou a intelectualidade brasileira após ter adotado o coletivismo gramscista. Com diversos exemplos, o filósofo demonstra como pessoas, que em outras situações seriam inteligentes, são capazes de se reunir para promoverem uma imbecilização geral e emburrecedora.
No fim, valem os preceitos fundamentais de nossa civilização ocidental cristã, tão difamada e ainda assim tão superior. Nas Escrituras a tensão entre o coletivo e a individualidade já está muito bem demonstrada. O choque entre a noção de salvação coletiva de um povo no Velho Testamento e a "nova" noção de salvação de indivíduos de todos os povos no Novo Testamento, e o estudo de como a abrangência universal da Igreja Cristã já era preparada pelos profetas é fantástico. Mesmo no passado distante, nas palavras de Moisés ao descrever a promesa à Abraão, já se prefigurava que incontáveis povos seriam abençoados pela descendência do patriarca. A descendência ali já se referia à massa dos inúmeros salvos de todas as nações. Tal tema é abordado também por Eric Voegelin no primeiro volume de sua coleção "Ordem e História", quando trata de "Israel e a Revelação".
No Novo Testamento está a figura da Legião, de muitos espíritos que habitam o mesmo corpo. E de como Cristo os expulsa para uma manada de porcos que se precipita ao abismo. Enxergo uma possível e rica alegoria aqui. O papel da Igreja é coletivo no que diz respeito aos seus membros manifestos e à sua organização, mas essencialmente o que vemos é o contraste com a noção profundamente individual da salvação. A figura da massa encarnada na manada de porcos se precipitando no abismo e o contraste do indivíduo salvo que encontra sua própria salvação perante os olhos do redentor é fantástica e, infelizmente, não foi explorada por Canetti. A narrativa do possesso termina com sua libertação da Legião e sua salvação por Cristo, e tal ato é traduzido pelo fato de que o salvo não se jogou no abismo junto com a manada de porcos; de certa forma ele se individualizou.

A discussão existencial da vida religiosa como algo diferenciado e avesso ao coletivismo imanente também pode ser vista nas heresias cristãs antigas, como no caso do donatismo, no qual Agostinho de Hipona combate a própria noção de que "todos" os fisicamente presentes na Igreja terrena seriam salvos, e declara, baseado claramente nas Escrituras, que o joio e o trigo só se separarão no final dos tempos. Também aqui uma visão coletivista simplista da religião não cabe, e o foco está no mais íntimo recesso da alma, no canto só conhecido mesmo por Deus e às vezes contemplado por nossa consciência.
A tensão existente entre o coletivo e o individual permeia nossa realidade, e frases feitas ou slogans políticos não ajudam em nada a construir alguma coisa melhor.